Crack exige novas estratégias policiais

14 Dezembro 2009  |  Publicado por Editor BRAHA em Políticas de Drogas


Imprimir este Post  |  Enviar por E-mail

Francisco Amorim - Zero Hora

Eternizada por produções cinematográficas de Hollywood nos anos 60 e 70, a campana policial viveu os últimos anos no anonimato. Teve seu brilho ofuscado pelos famosos grampos e escutas telefônicas. Recentemente, com a proliferação do tráfico de crack, a vigilância voltou a ser a principal arma na investigação policial.

Nas vigílias que se arrastam por dias, as máquinas analógicas e os rolos de filme deram lugar a modernas filmadoras digitais com visão noturna. A mudança de estratégia é uma exigência dos novos tempos, em que os agentes têm de se adequar às artimanhas dos traficantes. Para escapar de flagrantes, carregam pouca quantidade de droga, no que ficou batizado de tráfico formiguinha.

O desafio dos policiais é flagrar os criminosos com quantidade suficiente de droga que caracterize o tráfico. Caso contrário, serão enquadrados como usuários, garantia de liberdade.

Em praças, esquinas escuras e portões de escolas é travada uma guerra de estratégias entre policiais e vendedores. Atentos à artimanha dos traficantes, agentes das polícias Civil e Militar se revezam à paisana no monitoramento de locais suspeitos para reunir provas do comércio ilegal.

– Esses criminosos querem se aproveitar da legislação, que não prevê pena privativa de liberdade para usuários – explica o major André Luís Woloszin, subcomandante do 9º Batalhão de Polícia Militar (9º BPM), responsável pelo policiamento no centro da Capital.

– Para provar que um suspeito com poucas pedras é traficante, apostamos no levantamento fotográfico que comprova a movimentação de clientes e a troca de droga por dinheiro – explica o diretor do Departamento Estadual do Narcotráfico (Denarc), delegado João Bancolini.

Se em uma investigação de tráfico internacional, as escutas telefônicas e a quebra de sigilo bancário são os principais instrumentos da polícia para rastrear movimentações financeiras e identificar criminosos, no varejo do crack é preciso investir no monitoramento pessoal dos suspeitos.

– Esses pequenos traficantes não têm conexões além daquela com o patrãozinho da boca. Trabalham em troca de pedras. A ação repressiva tem de ser localizada – explica o coronel Altemir Ferreira, comandante do Policiamento da Capital.

Para combater o tráfico de crack nas ruas, no entanto, as polícias têm de despender um número maior de agentes do que o necessário para seguir, por exemplo, os passos de criminosos que agem no atacado da droga. Enquanto em uma investigação de uma quadrilha internacional, um agente pode monitorar até nove celulares de suspeitos sem sair da delegacia, em uma campana em um parque são necessários de dois a quatro agentes, com uma ou duas viaturas.

– É um grande investimento de pessoal para um retorno menor de apreensão. O resultado positivo é outro: dar tranquilidade àquela comunidade e afastar a pedra de um novo usuário – afirma o delegado Márcio Zachello, da 1ª Delegacia do Denarc.

Uma operação do Denarc na tarde de quinta-feira consumiu o trabalho de oito policiais que se revezaram no monitoramento de um ponto de venda de crack sob o viaduto da Conceição, na Avenida Alberto Bins, no centro da Capital.

Apesar da movimentação indicar a venda da droga, durante a abordagem a quatro suspeitos, todos com antecedentes por tráfico e posse, apenas seis pedras foram encontradas com um deles, indiciado por tráfico.

Truques do tráfico
Para escapar da prisão, traficantes tentam se passar por usuários. Confira os principais truques usados por esses criminosos para ludibriar policiais e enganar juízes que analisam os pedidos de prisão:
- Portam poucas pedras de crack
- Escondem a droga na boca ou em partes íntimas do corpo
- Engolem as pedras quando percebem a presença de policiais
- Levam a mão à boca para sinalizar a usuários que estão com pedras para vender
- Têm a proteção de olheiros, responsáveis pela vigilância do local
- Alguns ficam com a droga e outros com dinheiro recebido dos clientes
- Usam buracos em muros, bueiros, copas de árvores, lixeiras e até carrinhos de bebês como depósito para quantidades maiores da droga
- Agem longe do alcance de câmeras de segurança, sejam públicas ou privadas
- Costumam apedrejar lâmpadas instaladas em postes para dificultar a visualização à noite
Táticas da polícia
NA BRIGADA MILITAR
Para prender traficantes que agem em via pública, policiais monitoram por dias os pontos de venda. Confira algumas técnicas que têm levado bandidos para atrás das grades:
- PMs repassam diariamente à área de inteligência um relatório sobre pontos suspeitos
- Agentes à paisana, em viaturas discretas, passam a monitorar os locais
- Escondidas em pontos estratégicos, câmeras gravam a movimentação suspeita
- A abordagem a traficantes ocorre quando imagens gravadas já comprovam o crime ou a presença significativa da droga
NA POLÍCIA CIVIL
- Informações são checadas por equipes em viaturas discretas
- Durante as campanas, é feito o levantamento fotográfico
- Usuários de crack são seguidos até os pontos de venda e depois interrogados
- A abordagem ao traficante ocorre quando ele está entregando a pedra a um usuário
- O pequeno traficante pode ser vigiado para que leve os policiais ao depósito ou ao patrão

Imprimir este Post  |  Enviar por E-mail

ATENÇÃO: todos os textos publicados no site BRAHA.ORG têm como objetivo servir de fonte de informações técnicas e científicas para consulta e pesquisa de todos aqueles que desejam saber sobre os temas tratados.


Medicina & Saúde »

  • Estudo científico comprova que a maconha é ineficaz contra mal de Alzheimer e destrói neurônios
    Fev 9, 2010 | Texto completo

    Um novo estudo científico realizado com cobaias apropriadas não só demonstrou que a maconha não traz nenhum benefício no tratamento do Alzheimer, quanto confirmou que a maconha destrói neurônios. O resultado desta pesquisa põe em cheque todos os demais estudos que pretendem “comprovar” os supostos benefícios do uso de maconha por portadores de males neuropsiquiátricos.

  • Usuários consomem LSD pelo globo ocular na Espanha
    Jan 4, 2010 | Texto completo

    Segundo um relatório oficial, a técnica, que começou a ser detectada no final do ano passado, estaria sendo utilizada pelos usuários para acelerar os efeitos alucinógenos da droga, e seria mais barata que o método usual.

  • Voluntários anônimos na luta contra as drogas
    Dez 4, 2009 | Texto completo

    O adicto é uma pessoa que não tem condições de lutar sozinho contra o vício, precisa do apoio da família. O adicto não faz as coisas ruins porque quer, mas porque não tem forças para superar essas barreiras. Então, o principal recado que passo aos familiares é que eles devem ter serenidade sempre.

Políticas de Drogas »

  • Crack exige novas estratégias policiais
    Dez 14, 2009 | Texto completo

    O desafio dos policiais é flagrar os criminosos com quantidade suficiente de droga que caracterize o tráfico. Caso contrário, serão enquadrados como usuários, garantia de liberdade.

  • Rio: menores usuários de drogas terão internação obrigatória
    Out 27, 2009 | Texto completo

    Com a inauguração de três novos centros de recuperação de dependentes químicos mantidos pela prefeitura, a Justiça do Rio poderá determinar que menores usuários de drogas, principalmente de crack, fiquem internados mesmo contra a vontade deles próprios ou das famílias. Levada a cabo, a parceria entre os poderes Executivo e Judiciário poderá reverter um quadro, até o momento, de passividade das autoridades.

  • Opinião: Políticas sobre drogas
    Out 7, 2009 | Texto completo

    Como se preparar para responder ao surgimento de substâncias psicoativas cada vez mais diversificadas e com efeitos cada vez mais potentes? Essas mudanças fazem com que o debate em torno das políticas sobre drogas fique ainda mais complexo.

Cultura do Meio Ambiente »

  • Bitucas causam dano ambiental
    Jan 13, 2010 | Texto completo

    Um estudo coordenado pelo biólogo Aristides Almeida Rocha, professor aposentado da Fa­­culdade de Saúde Pública (FSP) da Universidade de São Paulo (USP), e pelo advogado e jornalista Mário Albanese, presidente da Associa­ção de Defesa da Saúde dos Fu­­mantes, mostra que duas guimbas de cigarro geram a mesma quantidade de poluição produzida por um litro de esgoto.

  • ‘Tapetes-puzzles’ contêm químicos perigosos
    Dez 7, 2009 | Texto completo

    Este material, idêntico ao dos pisos desportivos, é suave e amortece as quedas. Parece o brinquedo ideal, mas uma pesquisa da Teste Saúde mostra que pode ser prejudicial, por conter químicos nocivos, como os solventes formamida, acetofenona, amoníaco, 2-fenil-2-propanol.

  • Drogas causam 20% dos acidentes de trabalho no mundo, diz OIT
    Nov 24, 2009 | Texto completo

    O estudo divulgado na palestra “Consumo de drogas, álcool e medicamentos no trabalho”, indica que os setores profissionais com as maiores taxas de acidentes são os de relações públicas, comércio e construção, e se baseia na investigação de 38 empresas dos Estados Unidos, Europa e Ásia durante os últimos cinco anos.