Drogas e violência

27 Maio 2002  |  Publicado por Editor BRAHA em Políticas de Drogas


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Em entrevista ao Estado, o secretário da Segurança Pública de São Paulo, Marco Vinício Petrelluzzi, definiu o combate às drogas como prioridade de sua gestão. “Vamos atacar no centro e nos bairros, pois as drogas, principalmente o crack, estão ligadas cada vez mais aos assassinatos e os assaltos”, sublinhou o secretário. A repressão ao crime, particulamente aos delitos ligados ao tráfico de drogas, reclama uma profunda revisão da estrutura policial. O próprio secretário reconhece que ” a máquina da Segurança Pública não está completamente aparelhada para responder rapidamente à criminalidade existente em todo Estado”.

O mercado das drogas movimenta muito dinheiro. Seu poder corruptor anula, frequentemente, as boas intenções que costumam permear projetos puramente repressivos. Sem uma boa utilização dos recursos disponíveis - aliás cada vez mais escassos por causa da crise financeira - e sem uma adequada política salarial e de qualificação de pessoal, planos excelentes acabarão reduzidos a uma simples carta de princípios.

Policiamento ostensivo e repressão, elementos indispensáveis ao combate ao narcotráfico, são deveres elementares do Estado. Mas o êxito na política antidrogas não se esgota numa simples operação policial. O problema é muito complexo e seu encaminhamento exige uma corajoso política de prevenção e de recuperação de viciados. Um adicto na ativa é um aliciador e multiplicador exponencial na dissiminação do vício. Um recuperado passa a ser um poderoso aliado na guerra contra as drogas. A luta, sem dúvida difícil e com resultados modestos, pressupõe um grande mutirão preventivo dirigido ao adolescentes e as crianças. Nos últimos dois anos, dos 587 traficantes presos pelo Grupo de Apoio e Proteção à Escola (GAPE), 53 eram menores, entre 11 e 17 anos. Com o consumo de drogas cresce a violência entre os jovens, a banalização do crime e a impotência dos pais e professores.

O general Barry McCaffrey, principal executivo da política antidrogas do governo Clinton, esteve no Brasil no ano passado. Em entrevista ao Estado, McCaffrey sublinhou a importância estratégica de um forte investimento em programas de preveção e recuperação de dependentes. “Acho que o mais importante não são o dinheiro e equipamentos. A coisa mais importante é dividir pesquisas em métodos de tratamento e prevenção contra as drogas “, enfatizou. Citando estudos da Organização das Nações Unidas (ONU), McCaffrey disse que a queda no uso de drogas nos Estados Unidos foi de 50% nos últimos dez anos, e de 75% no caso da cocaína. Embora o país tenha 81 mil viciados em heroína, eles representam apenas 2% da demanda mundial.

O saldo positivo da estratégia norte-americana, crescentemente focada na prevenção e na recuperação, é um bom modelo para política nacional de combate às drogas. É preciso que se entenda que é muito mais díficil lidar com problemas já instalados do que prevenir novos problemas. A luta contra as drogas reclama um apoio mais afetivo e desburocratizado do governo e da iniciativa privada às instituições sérias e aos grupos de auto-ajuda que lutam pela recuperação dos adictos e prestam um apoio importante aos seus familiares.

Alguns serviços especializados oferecem relevante suporte aos seus doentes. O Grea (Setor vinculado ao Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo) é um centro de referência no tratamento de viciados. Destaca-se, também, o eficiente trabalho promovido pelos grupos de Narcóticos Anônimos (NA) e Amor Exigente e pela bem sucedida estratégia adotada pelas Comunidades Terapêuticas. Sem uso de medicamentos e investindo num conjunto de providências que vão às causas profundas da dependência, essas comunidades têm obtido um surpreendente índice de recuperação. Segundo Leo Oliveira, diretor de tratamento da Comunidade Terapêutica Horto de Deus, em Taquaritinga, interior de São Paulo, o programa tem apresentado índices de recuperação entre 50% e 60%. Vida saudável loborterapia, resgate de valores e espiritualidade e terapia de grupo e individual compõe receita dessas instituições.

O combate às drogas não se limita a urgente e necessária repressão policial. Esse combate começa na família e nas salas de aula, mas requer sólido apoio às iniciativas capazes de reeducar e reintegrar os jovens no convívio social.

 

Fonte: Revista Mind - Ano IV. nº 21 - Jan/Fev/Mar de 1999


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