O nosso narcoterrorismo
15 Outubro 2008 | Publicado por Editor BRAHA em Atualidades, Notícias
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Milton Corrêa da Costa
O Globo - 19/08/2008
O sequestro do diplomata, conselheiro da embaixada do Vietnã no Brasil, Vu Thanh Nam e de mais três chineses, ocorrido à luz do dia, no último sábado, 16/8, na Estrada das Paineiras, a 300 metros do Corcovado, uma das Sete Maravilhas do Mundo, fato de extrema gravidade, foi a gota d’água que faltava para que se comprovasse a consolidação do que fazíamos questão, há muito tempo, em não acreditar. Não dá mais para nos iludirmos e tapar o sol com a peneira. O Rio é hoje um novo modelo de Colômbia e a doutrina narcoterrorista está aqui consolidada.
A sequência permanente de atos de extrema violência e de desafio ao poder público (análise conjuntural), sem possibilidade sólida de contenção pelas forças de segurança do Estado, que acabou dando ensejo à cultura generalizada do medo (difuso e concreto), permite-nos identificar tal quadro. Seqüestros-relâmpago, bondes do terror, assaltos, arrastões, barulhos de tiros de armas possantes e treinamento de técnicas de guerrilha em morros e favelas, entrada de armas e drogas para os morros, insulfilm nos carros, grades, parafernália eletrônica de equipamentos de segurança, utilização de carros blindados pelas forças de segurança (”caveirão”), barreiras físicas, assassinatos em profusão, cercas periféricas, muros altos, fuzilamento de policiais em vias públicas, medo nos sinais de trânsito, aumento dos casos de síndrome do pânico, estresse pós-traumático, medicina de guerra nas emergências hospitalares, milícias, carros blindados, crescimento da indústria da segurança privada, ameaça a jornalistas e a membros do Ministério Público e do Poder Judiciário, são claros sinais da gravidade do quadro de guerra urbana, jamais visto em qualquer parte do mundo. Apoio inclusive a sensata decisão do governador Sérgio Cabral no pedido de ajuda urgentíssima das Forças Armadas para atuação direta no Rio, agora com respaldo jurídico em face da decisão da Justiça Eleitoral.
A questão do Rio, em termos de violência, é portanto multo mais grave do que em São Paulo (vide o exemplo de Vigário Geral, atualmente, na foto de primeira página do GLOBO de 16/8/08). O Rio é um novo modelo de Colômbia, sem a ideologia marxista dos grupos paramilitares, onde a doutrina do
narcoterrorismo, com emprego de armas de guerra, na disputa pelo poder paralelo entre grupos criminosos, em zonas de anomia, comprova-se pela implantação do medo, de táticas próprias de guerrilha e do desafio ao poder público.
O audacioso ato criminoso do último sábado (12 narcoterroristas armados de fuzis usando toucas ninja e coletes parecidos com os da Polícia Civil) não se constitui num ato próprio do terrorismo tradicional, pois este está calcado na ideologia político-partidária ou no desejo de libertação territorial ou ainda na tentativa de dominação de grupos fundamentalistas religiosos como ocorre no Oriente Médio. O que ocorreu aqui foi mais uma tática narcoterrorista com o objetivo de intimidar e chantagear o poder instituído, para obter alguma vantagem, através de uma ação tão espetacular que pudesse repercutir internacionalmente, mantendo assim acesa a chama do poder paralelo, tratando-se, sim, de um novo modelo de imposição do
terror: o narcoterrorísmo.
A realidade nos mostra que a capacidade operativa do aparelho policial do estado, por si só, já não é mais capaz de conter a gravidade do quadro, que é permanente. A questão passou da ordem pública para a grave ameaça à ordem institucional, em que a própria intenção de voto, nas próximas eleições, em determinadas localidades, não mais representará a vontade individual, mas a coação através do artifício do terror. Isso não é democracia. É narcoterrorismo com todas as letras.
MILTON CORRÊA DA COSTA é tenente-coronel da Polícia Militar do Rio, na reserva
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