Voluntários anônimos na luta contra as drogas

4 Dezembro 2009  |  Publicado por Editor BRAHA em Medicina & Saúde


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Quando uma pessoa se envolve com drogas, inevitavelmente leva para o mesmo caminho – muitas vezes sem volta – parentes e amigos. Os Grupos Familiares Nar-Anon surgiram justamente para ajudar os envolvidos indiretamente no problema do uso de drogas. O programa focaliza a família do dependente, permitindo a troca de experiências e a ajuda mútua. E foi num grupo desses que Leila*, 32 anos, encontrou um pouco de consolo para o drama das drogas na família. “Depois que passei a freqüentar as reuniões, mudei completamente a forma de enxergar o problema das drogas no meio familiar”, contou Leila*, que há dois anos freqüenta o grupo no Espírito Santo.

Como é conviver com um adicto?

Leila –* É realmente muito difícil. Tem que saber lidar muito bem com essa situação, até porque temos que ter consciência de que a adicção é uma doença incurável, progressiva e fatal. É justamente neste ponto que entra o trabalho maravilhoso executado nos grupos de ajuda mútua, como o Nar-Anon. Descobrimos que não somos os únicos com esse problema, com alguém usuário de drogas na família, e também que é preciso conviver com essa dificuldade.

Há quanto tempo você participa das reuniões do Nar-Anon?

Leila - Desde 2003. Para ser mais precisa, desde o dia 9 de maio de 2003. E desde então tenho enfrentado essa batalha contra as drogas com outro ânimo. O Nar-Anon ajuda a gente a encontrar um conforto, uma saída. Ajuda a percebermos que não há culpados nesta situação.

A família normalmente se sente culpada quando algum familiar cai no mundo das drogas?

Leila - Sim, esse é o primeiro problema enfrentado pelos familiares ou amigos dos adictos: achar que a culpa é deles, do pai, da mãe, do irmão, da esposa, do marido. E na verdade ninguém tem culpa por estar vivendo este drama. O mais importante é não ficar procurando culpados, culpas, descarregando rancor ou ressentimento. Isso só aumenta mais ainda o problema, que já é imenso. O adicto sabe o que é certo e o que é errado. E quando ele faz algo considerado errado não é por que gosta, mas porque não tem condições de superar esse problema sozinho. A intenção dos grupos de ajuda mútua é buscar sempre a serenidade, não crucificar ninguém.

E é por isso que não há conselhos nas reuniões?

Leila - Sim. Não freqüentamos as reuniões para sermos julgados. Vamos lá em busca da serenidade. Para mim, o Nar-Anon é uma outra família, um local especial em que posso relatar minhas dificuldades, mas também onde compartilho meus sucessos. Muitas pessoas chegam lá carregadas, cheias de culpa, com dificuldades para falar. Mas depois de um tempo, elas descobrem que a melhor saída é compartilhar as emoções. E é emocionante ver muitas dessas pessoas que estavam com semblantes sofridos darem sorrisos. O rosto expressa essa alegria, o semblante fica muito mais leve.

Mas é obrigatório falar nas reuniões?

Leila - Não. Nada é obrigatório. Se quiser falar, pode falar; mas, se não quiser, pode ficar calado, tranqüilo. As coisas acontecem de maneira muito natural. Tudo tem que ser voluntário. E esse é o espírito das reuniões. Todas as pessoas que estão ali estão voluntariamente, não há pressão em hipótese alguma. Acredito que é justamente por isso que funciona, porque há uma liberdade. Eu mesma, aceitei coordenar o grupo voluntariamente. Se fosse obrigada, certamente não me disporia para essa função.

E qual a função da coordenação numa reunião?

Leila - Não é nada hierárquico, não é líder. No Nar-Anon, não há liderança. O coordenador apenas é uma pessoa de referência que prepara o espaço para a reunião. Me sinto muito feliz podendo contribuir voluntariamente na coordenação. E tem que ser voluntário, pois de outra forma não seria um apoio verdadeiro.

Para participar do Nar-Anon, o adicto tem que estar participando dos Narcóticos Anônimos?

Leila - Não. Para fazer parte do nosso grupo, basta que algum amigo ou parente esteja enfrentando o problema das drogas. Meu marido, por exemplo, está na “ativa”, mas não freqüenta os Narcóticos Anônimos atualmente. Mesmo assim, eu continuo participando das reuniões do Nar-Anon. Temos uma pessoa no nosso grupo que tem um parente “limpo” há 15 anos. Mesmo assim ela não deixou de participar das reuniões. Isso me dá forças e serenidade para enfrentar esse problema.

Você acredita que seu marido irá se recuperar?

Leila - Sim, não tenho dúvidas. Por isso estou grávida do segundo filho. Sei que ele vai superar essa fase difícil. E, independente de qualquer coisa, estarei sempre do lado dele.

Que recado você deixa para os familiares de pessoas que estão vivendo o problema das drogas?

Leila - Não é conselho, mas o que aconteceu comigo. Uma das coisas que aprendi foi que não devo nunca bater de frente. Mas também não ser passivo. O adicto é uma pessoa que não tem condições de lutar sozinho contra o vício, precisa do apoio da família. O adicto não faz as coisas ruins porque quer, mas porque não tem forças para superar essas barreiras. Então, o principal recado que passo aos familiares é que eles devem ter serenidade sempre.

(*) O nome da entrevistada foi alterado para preservar o anonimato.

Fonte: http://portaldovoluntario.org.br/blogs/41233/posts/1550


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