Depois de uma infância conturbada, R.C.A., hoje com 48 anos, buscou conforto nas drogas. Dos 18 aos 46 anos, foi viciado em álcool e cocaína. A influência veio de casa: o pai era alcoólatra e o irmão, traficante. R.C.A. encaixa-se no perfil de uma pesquisa pioneira do Conselho Estadual Anti-Drogas do Rio (Cead) sobre pessoas que procuraram ajuda médica pela primeira vez entre 1999 e 2004.
Dos 3.672 pacientes, 79,5% moram com a família. Entre os homens, 73% disseram ter histórico familiar de dependência química. Entre as mulheres, o percentual sobe para 83%.
Em muitos casos, o contato com entorpecentes começa cedo. Os pesquisadores constataram que 63% dos pacientes tinham entre 10 e 17 anos quando fizeram uso de álcool, maconha, cocaína e outras drogas pela primeira vez. A faixa etária predominante das pessoas que procuraram ajuda no Cead está entre 22 e 39 anos. Os dados do estudo basearam-se nas informações dos prontuários médicos de 1.971 homens e 1.701 mulheres que passaram pelo conselho entre 1999 e julho de 2004.
“Essa pesquisa é pioneira na sua amplitude porque fizemos um mapeamento dos pacientes do Estado como um todo. Queremos saber quem recebemos e otimizar esse atendimento”, disse a psiquiatra da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Ana Cristina Saad, que coordenou o levantamento, patrocinado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj). Também participaram do estudo pesquisadores da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), assistentes sociais e psicólogos do Cead.
Todos os dias
O perfil epidemiológico revelou ainda que 68% das pessoas admitiram fazer uso de entorpecentes todos os dias. O álcool é a droga preferida para 55% dos homens e 47,8% das mulheres. A cocaína vem em segundo lugar, com 49% e 43%, respectivamente, seguida da maconha, com 26,5% para o sexo masculino e 21% para o sexo feminino.
“O álcool é uma questão de saúde pública. É uma droga lícita que foi banalizada e é estimulada. Chamamos de droga silenciosa porque a pessoa começa cedo e só percebe que se viciou anos depois”, disse Ana Cristina. Segundo ela, outros dados mostram que 51% dos pacientes não têm o primeiro grau completo e 62,5% não possuem renda fixa.
Para a psiquiatra, a influência da família nos dependentes é “paradoxal”. “Vimos a importância do envolvimento dos familiares. Representam a proteção e, ao mesmo tempo, eles mesmos usam a droga. Muitas vezes o parente que traz o paciente aqui no Cead vem embriagado.”
Tratamento
Depois de dois anos no Cead, R.C.A disse que recuperou a confiança. “Vim para cá após tentar o suicídio. Cheguei sem muita expectativa, mas estou readquirindo minha auto-estima”, contou ele, pai de uma menina de 10 anos que não vê “há anos”. R. disse que teve uma decepção na infância ao ver a mãe com outro homem e que isso o levou ao vício anos mais tarde.
“Quando era menor, bebia de vez em quando porque tinha bebida em casa”, relatou o paciente, que estudou até o segundo ano do ensino fundamental. Além do pai alcoólatra, ele via o irmão mais novo se envolver com drogas. “Ele usava álcool, maconha e cocaína. Foi preso e acabou assassinado no ponto-de-venda (da droga) em uma favela de Niterói.”