”Fim” do crack é prometido há 10 anos
21 Fevereiro 2010 | Publicado por Editor BRAHA em Cultura das Drogas
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Droga, que era apreendida em gramas em 1995, ganhou área própria em SP e hoje não se vê solução a curto prazo
Elvis Pereira
Mas o subproduto da cocaína conquistou um território próprio: a cracolândia, um punhado de ruas no centro da capital paulista onde viciados, de todas as idades e classes sociais, se aglomeram e acendem cachimbos diversas vezes ao dia para sentir o curto e intenso “barato” proporcionado pela pedra. Um ritual que, na opinião de quem tentou enfrentá-lo na última década, não tem previsão para acabar.
A trajetória do crack em São Paulo está ligada ao centro velho. A primeira apreensão da qual se tem notícia na capital data de 1986. O então Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) flagrou Antonio Viana com 100 gramas da droga na Rua Major Sertório, na Vila Buarque. A companheira dele, Noemia Siqueira, guardava mais 600 gramas num apartamento na Alameda Barão de Limeira, na República. Ambos se declaram “mulas”: ou seja, teriam sido contratados para transportar a encomenda de Corumbá (MS), sem saber do que se tratava. A Justiça absolveu o casal. Dois anos depois, um traficante revelou ao Deic que a droga vinha sendo inserida facilmente pela rota entre Corumbá e a cidade de Porto Suárez, na Bolívia.
Em 1991, o Departamento de Investigações sobre Narcóticos (Denarc) recolheu pela primeira vez a pedra na Boca do Lixo, nome pelo qual era conhecido o quadrilátero formado pelas Avenidas São João, Rio Branco, Ipiranga e Rua Mauá. Naquele ano, o total de droga recolhida em toda a cidade chegou a 150 gramas.
Dali em diante, o tráfico enraizou-se, instalando laboratórios de refino da droga em hotéis. Traficantes aliciavam crianças para distribuí-las no centro. Em 1992, já era mencionado que a Boca do Lixo dera lugar à cracolândia. Em 1995, o governador do Estado, Mário Covas, morto em 2001, ordenou a criação de uma delegacia para investigar o crack.
Os esforços das Polícias Civil e Militar se tornaram cada vez mais frequentes. De 1997 para cá, houve em média pelo menos uma operação por ano na cracolândia. Prenderam-se centenas, entre fornecedores, distribuidores e usuários. Entre eles duas mulheres apontadas como “rainhas do crack”, além de um “rei”. Pelo menos dois viciados foram assassinados ali. Um deles fora queimado por um traficante por não pagar a compra do crack. Por mais de 80 vezes a Prefeitura interditou hotéis, pensões e cortiços em situação irregular.
“O problema ali não é especificamente de segurança pública. Ele é por um lado de saúde e por outro de intervenção urbana”, afirmou o procurador de justiça Marco Petreluzzi, secretário de Segurança Pública entre 1999 e 2002. Ao assumir o cargo, ele anunciara a meta de erradicar o crack em quatro anos. “No meu tempo, nunca tive a ilusão de que resolveria o problema ali com a polícia”, avalia o procurador hoje. “Mexer com droga é enxugar gelo. Tira-se um traficante e vem outro. Enquanto houver consumidor vai haver traficante.”
Ao se tornar prefeita, em 2001, Marta Suplicy prometeu que recuperaria o centro. “Durante a minha gestão, (a cracolândia) causava total preocupação. Mas eu tinha clareza de que se fosse lidar somente com aquela área iria levá-la a outros locais, sem resolver o problema.”
Em 2005, ao se tornar subprefeito da Sé, o empresário Andrea Matarazzo elegeu como desafio mudar a cracolândia. “Ela melhorou muito em relação ao que era, mas tem um longo caminho pela frente”. “Desde o início”, acrescentou, “eu imaginava que o processo de revitalização era de pelo menos dez anos”. “Não é porque você urbanizou que os usuários de crack vão deixar de existir. Aquela população precisa de tratamento, de internação.”
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