Chegada do Verão acende alerta para entrada de drogas sintéticas

4 Janeiro 2010  |  Publicado por Editor BRAHA em Cultura das Drogas


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Por Bruno Menezes - Correio da Bahia

Apenas 0,05 miligramas e um efeito devastador. É isso que buscam os usuários da gota, como é chamado o LSD em estado líquido, considerada a droga do Verão em Salvador. Com a gota, também desembarcam na cidade novas formas de drogas sintéticas, como o SpecialKou o Cristal Ice. Ainda pouco conhecidas da polícia, elas possuem muitos armadilhas para conquistar usuários.

Esse conjunto de drogas da moda tem até apelido entre os usuários: são as club drugs, drogas sintéticas, em geral, consumidas em festas de música eletrônica. Mesmo com a atenção mundial voltada para o assunto (o Observatório Europeu das Drogas e da Toxicodependência, em Lisboa, funciona 24 horas por dia, justamente para detectar as novas drogas), o tráfico desse tipo de substância é facilitado pelas formas como as drogas se apresentam.

Tráfico

O universitário João Victor*, 28 anos, que já passou por tratamento até em clínica no exterior, conta que seu fornecedor viajava pelo menos três ou quatro vezes por ano para os Estados Unidos e Europa em busca das drogas.

“Eles traficam de todos os jeitos, colocando as drogas em potes de creme, livros, vidros de perfume, colírios, descongestionantes nasais, tudo para passar na alfândega e não serem identificados”, conta um agente que trabalha na Delegacia de Repressão a  Entorpecentes da Polícia Federal na Bahia.

O advogado Pedro Luiz*, 34 anos, que está internado há um ano na clínica Vila Serena, em Lauro de Freitas,conta que sua primeira investida no mundo das drogas aconteceu durante o Verão. “Os turistas acabam trazendo muitos tipos de substâncias, algumas que a gente nem conhece. Experimentei maconha, passei para a cocaína e algumas drogas sintéticas, dessas que até o nome é difícil de pronunciar. Até que eu cheguei no crack”, conta, alertando que as pessoas precisam prestar muita atenção no que consomem.

Facilidade

No caso da gota, de acordo com o policial federal, a identificação da substância por vigilantes, seguranças e até mesmo para a polícia especializada é ainda mais difícil. “Eles pingam a gota numa bala qualquer, que absorve a substância. Quando chegam à festa ou à boate, colocam na boca e não há flagrante”, explica.

Para João Victor, o drible na polícia era motivo até de comemoração. “A primeira vez que passei com drogas pelo aeroporto foi uma vitória. Voltei da Europa e trouxe duas cartelas de micropontos de ácido(LSD) dentro de um livro que eu estava lendo. Fiquei com medo, mas acabou dando certo”,completa o jovem,que agora, recuperado, pensa em trabalhar como voluntário em centros de ajuda para dependentes.

O prejuízo econômico é outra consequência comum do uso das drogas. “O vício exige mais do consumidor e ele acaba não tendo dinheiro para sustentar a quantidade de drogas que ele acaba se acostumando a usar. Por isso, acaba buscando drogas mais baratas”, esclarece a assistente social e diretora da clínica Vila Serena, Júlia Damiana de Souza Nascimento.

Com a chegada do Verão no último dia 21, a Polícia Federal lançou um alerta para que sejam intensificadas as buscas por substâncias sintéticas, entre elas o GHB, o MDMA, o Poppers, o Ecstasy e até estimulantes sexuais (veja o glossário).

*Nomes fictícios

Glossário

Club Drugs - Drogas sintéticas consumidas em festas de música eletrônica

Cristal Ice - Metanfetamina,  ingerida em cápsula, derretida para ser injetada, cheirada como a cocaína e fumada como o crack

GHB - Ácido Gama Hidroxibutírico ou Ecstasy líquido

Gota - LSD em estado líquido

MDMA - Princípio ativo do ecstasy em estado líquido

Micropontos - Pedaços de papel grosso contendo LSD

Polígono da Maconha - Região do Vale do São Francisco pernambucano

Poppers - É também conhecido como incenso líquido. Muito usado por homossexuais por relaxar a musculatura do corpo e facilitar o sexo anal.

Special K - Anestésico de uso veterinário

Spring - Éter com clorofórmio

Droga vem da Europa e abastece três estados

A Polícia Federal mapeou a rota feita pelas drogas para chegar até o consumidor baiano. Drogas sintéticas, que têm Salvador como um dos destinos principais, geralmente são trazidas por via aérea, de acordo com as investigações. Elas vêm da Holanda, de Portugal e da Espanha para a capital baiana, Minas Gerais e São Paulo.

Os dois estados do Sudeste somados ao Rio de Janeiro recebem dos países latino-americanos, como Paraguai e Argentina, parte da maconha consumida no país. A outra parte é produzida no chamado Polígono da Maconha, em Pernambuco. Bolívia e Colômbia exportam para o Brasil parte da cocaína que produzem. Do que chega ao Brasil, parte fica e o restante segue para a Europa.

Atrás de novas ondas, jovem toma chá de fita de vídeo

Para a diretora da clínica Vila Serena, Júlia Damiana, muitas vezes o corpo do dependente químico satura da substância usada e a droga passa a não produzir mais o efeito esperado pelo viciado. Com isso, se inicia mais um capítulo perigoso do vício. Foi assim com Michel*, um estudante universitário de 23 anos.

Usuário de maconha, cocaína e ácidos, ele chegou ao fundo do poço e, hoje, sofre as consequências. “Cheguei numa fase em que a cola de sapateiro, a maconha e a cocaína já faziam parte da minha vida. Até que comecei a usar crack e merla, droga feita da borra que sobra do crack. Foi aí que eu resolvi experimentar outras coisas e me dei muito mal”, conta o estudante, que bebeu pela primeira vez há um ano e meio um chá feito de fitas de vídeo.“Quebrei uma fita que eu tinha em casa e fiz o chá. A onda foi horrível. Na verdade, não foi onda. Foi intoxicação mesmo”, conta.

O estudante lembra que teve náuseas, fortes dores de cabeça, irritações na pela e nos olhos. “Quando procurei um médico, levei uma escaldada feia. Quase morri”, disse. Ele conta que a ideia surgiu quando amigos já tinham experimentado um chá feito de chapas de raio-X.

Há casos, conhecidos da polícia, de pessoas que ingeriram chás feitos de pilha, que injetaram refrigerantes no corpo, entre outras coisas. “Até gás de buzina eu cheirava quando queria ficar doido”, completa Michel.

Para a médica Júlia, esse é o maior absurdo que um jovem pode cometer. “Cada caso é único e deve ser estudado, mas é uma ignorância um jovem fazer essas coisas. Deve-se levar em consideração aquela velha frase da infância. Não aceite nada de ninguém. Já melhoraria muito”, explica.

Fonte: http://correio24horas.globo.com/noticias/noticia.asp?codigo=46023&mdl=29


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