Usuários de crack se sentem presos pela droga
24 Novembro 2009 | Publicado por Editor BRAHA em Cultura das Drogas
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É difícil encontrar uma pessoa, hoje, que não conheça alguém que tenha se envolvido com drogas. Um amigo, um colega, o filho de um conhecido, um vizinho ou alguém da família. Dentre as drogas que mais preocupam está o crack, uma pedra barata e que vicia rápido.
O noticiário traz quase todos os dias algum fato que envolva esse tipo de droga: apreensões, prisões, morte. Em geral, jovens que mal chegaram aos 20 anos morrem não do efeito da droga em si, mas do que está em torno dela como dependência, compulsão, mentira, venda do patrimônio da família, roubo.
“Eu já admiti a minha doença, mas vejo que está faltando alguma coisa ainda e eu quero estar totalmente aqui dentro para poder me recuperar”. Esse é o lamento é de um dos 120 homens que se afastaram dos filhos, das mulheres, do trabalho, dos amigos - geralmente em silêncio, para não morrerem de vergonha, para se tratar em uma comunidade terapêutica, na qual 80% dos pacientes são dependentes de crack.
“Tenha paciência, faça uma coisa de casa vez. Não se cobre muito, não seja crítico de si mesmo”, comenta o monitor da comunidade terapêutica. Os pacientes dormem em quartos coletivos, cozinham, limpam, dividem com desconhecidos a temporada dedicada à recuperação.
A saudade da família, principalmente dos filhos é a parte mais difícil no tratamento. “Meu coração é muita saudade. Parece que tem um espeto, assim, bem profundo, assim, de saudade, querendo estar junto com eles”, comenta David Moura da Nóbrega, 32 anos, técnico em Radiologia, pai de um menino de quatro anos, que mora com os avós e irmãos.
Alguns nem se sentem preparados para ter contato com as crianças. “O que aconteceu é que eu estou me sentindo incapaz de recorrer a eles, porque eles sabem, o pessoal lá no bairro onde eu morava sabe que eu abusei das drogas”, explica Adroaldo Leitão, 43 anos, pai de três filhos. Ele está internado há 18 dias e ainda não sabe como fazer para se livrar das drogas depois que sair da clínica. A atual companheira também fuma crack.
Na comunidade terapêutica, 20% das vagas são da cota social destinada pela instituição a quem não tem condição de pagar. Para os outros, a despesa do internamento pode chegar a R$ 12 mil. O tratamento não garante cura em algumas vezes: 30% das pessoas que usam crack recaem depois de um mês sem tratamento e 70%, têm a recaída depois de seis meses.
“É importante não esquecer que mesmo aqueles que recaem necessitam continuar em tratamento. O fato de estar em tratamento, mesmo estando num processo de abstinência e recaída, protege essa pessoa de muitas situações de risco, tanto em relação à violência quanto em relação aos efeitos da substância”, explica o psiquiatra Marcelo Machado.
O crack é preparado a partir da pasta base de cocaína. Assim que fumado, alcança o pulmão e chega quase imediatamente ao cérebro, levando cerca de 10 a 15 segundos para surgirem os primeiros efeitos.
“Causa uma dormência do esôfago ao estômago por conta da cocaína, que é a base do crack, e com essa dormência não há fome. A pessoa só se alimenta de líquido, sua muito, parece que estava correndo uma maratona. O coração acelera bastante. Acho que por conta disso eu tive um princípio de overdose”, explica um dependente, que está recebendo auxílio doença do INSS, tem 34 anos e um filho. Ele está na segunda internação.
De acordo com usuários da droga, em cinco minutos a euforia desaparece e a pessoa quer mais. “O corpo pede e quando o corpo pede que você usa, você não olha para trás. Você só olha para frente em busca do que você quer conseguir, que é a satisfação que ela dá”, comenta Adroaldo.
Muitos dizem que chegaram a um ponto não de curtir a droga, mas de a droga curtir com eles. “Eu não fumava mais pra ter prazer. Eu usava para acabar com a minha vida. Já estava desacreditado, já não tinha credibilidade nem na família”, avalia o dependente, que preferiu não se identificar.
“Eu já pensava em morrer. Eu não tinha coragem mais de pular na frente de um ônibus ou, então, ‘dá’ um tiro na cabeça. Então, eu estava fazendo isso, comprando álcool de posto pra beber”, revela Pietro Charliton da Silva, 40 anos, e pai de três filhos. O motorista é usuário de crack há cinco anos e faz tratamento há cinco meses.
Muitos usuários procuram ajuda porque percebem que atingiram o fundo do poço e pedem socorro, mas alguns não conseguem perceber que precisam de ajuda. “Eu acordei em casa e tinha três pessoas, que me pegaram a força e me trouxeram para essa instituição. No meu começo de tratamento, eu ainda tinha muita raiva, muita raiva dos meus familiares por terem me colocado aqui. Eu tinha muita raiva da instituição por estar me prendendo aqui. E eu ainda tinha, assim, muita negação. Eu não aceitava a minha doença, eu não aceitava que era um dependente químico, mas com o passar do tempo acabei me conscientizando da necessidade de um tratamento”, explica o dependente de 34 anos, pai de três filhos. Ele usa crack há sete anos e foi internado duas outras vezes.
“A fase inicial do tratamento é uma fase de desintoxicação, que dura em, média, de quatro a seis semanas. É o período em que o corpo vai se adaptar a viver sem a substância que estava sendo abusada”, explica o psiquiatra.
O internamento involuntário só pode ser feito por parentes de primeiro grau, como pai e mãe, quando há risco de vida para o dependente ou para outras pessoas. Além disso, um médico precisa confirmar a necessidade da intervenção forçada.
O tratamento inclui remédios, assistência de psicólogo, psiquiatra, palestras, muita conversa em grupo. O vício em drogas e álcool é tratado como uma doença crônica, como diabetes, por exemplo. É uma doença devastadora que arrasa não só o usuário, mas também a família e traz muito sofrimento para todos.
Fonte: http://pe360graus.globo.com/noticias/policia/pedra-da-morte/2009/11/23/NWS,502758,8,618,NOTICIAS,766-USUARIOS-CRACK-SENTEM-PRESOS-PELA-DROGA.aspx
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