Família incentiva jovem a beber

27 Outubro 2009  |  Publicado por Editor BRAHA em Álcool e Tabaco


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Guilherme Russo - Diário do Grande ABC

 

Legalizado, aceito socialmente e usado em ambientes familiares ou não, o álcool aparece como a segunda droga mais usada por crianças e adolescentes do Grande ABC. Perde apenas para o cigarro. O dado é de uma pesquisa que ouviu 413 meninos e meninas em situação de risco na região.

 

Especialistas explicam que o consumo de álcool costuma começar dentro das próprias famílias, em muitos casos antes que as crianças completem 13 anos.

 

“Muitas famílias não entendem o álcool como droga. Esse é o principal problema. Nos últimos tempos, o Grande ABC vem se deparando muito com essa situação”, diz Marco Antônio da Silva, coordenador geral da ONG Meninos e Meninas de Rua, que atua na região e em Guarulhos, na Grande São Paulo.

 

Duas irmãs, de 15 e 16 anos, ouvidas pelo Diário anteontem, contaram que foram seus pais que lhes deram bebidas pela primeira vez. E que só bebem se for na presença deles, dentro de ambientes familiares. “Bebi com 10 anos, com permissão dos meus pais. Só bebo com eles vendo”, disse a adolescente de 15. Sua irmã, de 16, não se lembra bem do primeiro gole. “Foi com uns 11 ou 12 anos. Meu tio bebe, meu pai bebe.”

 

Segundo pesquisa do Portal Educacional, 30% dos adolescentes já costumam beber frequentemente aos 14 anos, podendo desenvolver o principal problema decorrente deste consumo: o alcoolismo.

 

ILÍCITAS - Coordenador do Desafio Jovem Viva a Vida, em Rio Grande da Serra, João Arlindo Leonardo conta que os adolescentes “não ficam muito tempo” só no álcool, que serve como porta para o consumo de outras drogas, ilícitas. E os jovens acabam por se envolver com a criminalidade, uma vez que começam a consumir entorpecentes.

 

Segundo o levantamento da Meninos e Meninas de Rua, depois do cigarro e do álcool, a maconha figura como a droga mais consumida entre os adolescentes.

 

Marco Antônio da Silva explica que muitos dos adolescentes que admitiram o uso de drogas na pesquisa contam que consomem mais de uma substância de uma vez.

 

A cocaína apareceu como a quarta droga mais usada pelos jovens em situação de risco. O mesclado, cigarro que mistura maconha com crack, figurou em quinto lugar na pesquisa.

 

Curiosamente, o uso de drogas sintéticas, como o LSD e o ecstasy aparece à frente do consumo de solventes, como o tíner ou benzina, que aparece logo depois na pesquisa. Nos dois últimos lugares, aparecem o crack usado puro e a cola de sapateiro.

 

‘As mães deveriam pegar mais no pé”

 

Quando o assunto é bebida alcoólica, não há tabus nem papas nas línguas entre os adolescentes que admitem o uso do álcool, estejam eles consumindo bebidas no momento ou não. Em uma breve volta por parques e bares em imediações de escolas, o Diário flagrou inúmeros jovens com menos de 18 anos consumindo álcool no Grande ABC.

 

“Sou meio louca. Uma vez (no ano passado), bebi antes de entrar na escola. Foi a maior doideira (risos). E me deram o apelido de ‘cachaceira”. Mas ninguém (da direção da escola) percebeu, porque já sou louca sem beber”, contou uma menina de 16 anos, que matava aula no Parque Celso Daniel, em Santo André, na sexta-feira.

 

Ela contou que começou a beber aos 12 anos e que, em sua turma, “sempre tem um amigo maior” que compra bebidas aos adolescentes.

 

No mesmo parque, um jovem de 17 opinou que “as mães deveriam pegar mais no pé”. “Já fiquei bêbado e passei mal (há cerca de seis meses). Gosto de beber só pra curtir. Tem hora que a gente tem que por na cabeça um limite”, contou o garoto, lembrando-se da forte ressaca que teve de enfrentar.

 

Dividindo um copo de cachaça curtida em carqueja e uma garrafa de uísque que estava escondida do dono do estabelecimento, cerca de dez adolescentes desfrutavam a noite bebendo tranquilamente, na calçada de um bar próximo à EE Doutor Américo Brasiliense, na Praça 4º Centenário, em Santo André, na sexta-feira.

 

Em clima de descontração, os adolescentes contaram que não há problemas em se conseguir bebidas alcoólicas pelo Grande ABC. “Ninguém pede RG não, tio (no momento em que eles compram bebidas)”, disse um adolescente de 16 anos.

 

“Eu já tomava cerveja com o meu tio, acho que desde os 7 anos. Mas agora, só tomo um goró de vez em quando”, contou um adolescente de 16 anos desta turma. “Foi com a minha mãe e com o meu pai que comecei a beber. Com 10 anos”, disse um colega, também de 16.

 

Prática começa antes dos 13 para 37% dos pesquisados

 

Antes de completar 13 anos, nada menos do que 37% dos adolescentes já consumiram algum tipo de bebida alcoólica, segundo informa pesquisa realizada pelo Portal Educacional. Quando chegam aos 13, metade dos adolescentes conta que já ingeriu alguma bebida. A entidade ouviu 11.846 jovens, com idades entre 13 e 18 anos; 66,89% dos entrevistados disseram que já haviam bebido.

 

Quando chegam aos 14 anos, 64% dos adolescentes contam que já beberam. Aos 15, o percentual aumenta para 76%. Acima dos 16 anos, 84% confessam que já deram goles em alguma bebida alcoólica.

 

A pesquisa conta ainda que 30% dos adolescentes dizem que começam a beber com frequência a partir dos 14 anos.

 

Segundo o levantamento, os jovens que têm mais problemas com álcool, são “filhos de pais que nunca viveram juntos” ou “jovens que têm relação ruim ou péssima em casa”. Nas famílias cujos pais bebem demais, as crianças também tendem a experimentar o álcool mais cedo.

 

O estudo conclui ainda que jovens de famílias que não seguem nenhuma religião também estão entre os que bebem mais, assim como alunos com desempenho péssimo na escola e que faltam demais às aulas.


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